sexta-feira, setembro 30, 2022
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É sobre você: um papo sobre esporte e autodescobertas

Imagine fechar os olhos e mergulhar de cabeça em um projeto. Você até sabe que no seu entorno estão o medo, a insegurança, as mudanças não planejadas e os obstáculos, mas segue em frente para alcançar seus objetivos, pois eles dependem exclusivamente de você.

Se identificou com a situação acima? Então podemos supor que você é um profissional ativo ou buscando por um espaço no mercado. Ou, ainda, um atleta.

Hoje o Next apresenta Marcos Fracarro, maratonista aquático de Piracicaba (SP) e recordista do Amazon Challenge 30k. Para nós, ele contou sobre sua carreira, seus futuros desafios nas maratonas europeias de Capri-Napoli e do Canal da Mancha (o Everest da natação) e trouxe uma importante lição sobre descobrir propósitos e construir habilidades – para atletas e para quem caminha no mundo corporativo.

Confira!

Ser atleta estava nos seus planos desde pequeno?

Na verdade, eu tinha em mente o que a maioria das crianças pensavam: queria fazer a diferença de alguma forma. Independentemente do que eu escolhesse, queria ser alguém que tivesse o potencial de mexer com as pessoas, liderar algum projeto ou ser influente de alguma forma.

Então como aconteceu essa aproximação com os esportes?

Lembro que eu assistia todo fim de semana as corridas do Ayrton Senna, mas em nenhum momento eu tive condições de partir para o automobilismo. Além disso, não levava jeito para nada. Meus pais sempre me estimularam a fazer algum esporte e comecei jogando futebol no clube, só que não era o que eu gostava. Perto dos dez anos, minha irmã, prima e eu resolvemos fazer natação. No fim das contas, só eu continuei.

Você conseguiu realizar aquela vontade de fazer a diferença?

Com certeza. Foi com esse esporte que eu soube que pessoa eu gostaria de me tornar. A natação, além de me ensinar tudo que é necessário para ser um bom nadador, como disciplina e persistência, ainda abriu as portas para que eu pudesse trabalhar com ela e conseguir influenciar pessoas. Hoje tenho meus alunos e as pessoas se aproximam e espelham na gente ao acompanhar nossas competições. Sinto que estou começando a realizar o que eu queria há tanto tempo.

Como a natação passou de hobby para profissão?

Bom, depois que eu comecei a praticar a natação, percebi que conseguia ser muito bom no ambiente aquático e decidi continuar com isso, já que dependia só de mim. Na equipe que fiz parte eu era um dos melhores, mas foi em uma grande competição que a primeira pancada veio e me fez repensar sobre o que eu queria. Dentro do meu grupo, eu era o melhor, mas fora dele eu não era nada.

Essa história tem uma grande virada, certo?

Ela tem (risos). Depois de terminar minha faculdade em outra cidade, retornei com o pensamento de que talvez eu não quisesse mais insistir na mesma coisa e foi isso que me empurrou para nadar em águas abertas. Procurei o Samir Barel para ser meu técnico e foi só participar da primeira maratona aquática que já me vi saindo de um ambiente em que eu era apenas mais um para finalmente subir um degrau.

Depois disso, foi impossível parar?

Pois é! Conseguir aquele feito perto dos trinta anos me motivou demais. Em poucos meses alcancei resultados incríveis – ao menos no meu ponto de vista – e foi dessa forma que me encontrei no esporte. As coisas foram acontecendo naturalmente, só que muito rápido. Quase quatro anos se passaram e agora estou partindo para o meu maior desafio, lá no Canal da Mancha.

Durante essa jornada de descobertas, o que te marcou até hoje?

Acredito que foram as quedas. Até porque me levantei por causa delas. Eu tinha um emprego bom e estável na cidade e me esforçava muito por ele. Tenho a firmeza de falar que trabalhei bem por sempre ter dedicação. Então estava confiante de que ali eu iria ficar por muito tempo, senão para o resto da minha carreira.

Já tinha sete anos de casa quando fui desligado. Me encontrei sem saber o que fazer e nesse momento retomei uma ideia de assessoria inspirada pelo clube em que eu trabalhava, que não tinha preparação para maratonas aquáticas. Isso me marca demais porque foi o que me motivou a construir um sonho.

Quanta coragem!

Na verdade, foi meio assustador no começo, porque a empresa que tenho agora surgiu de um ponto em que eu tive uma decepção muito grande na área profissional. Quando essa ideia veio, havia também as incertezas sobre como me manter e fazer o negócio girar. Não podia ter margem para erros.

Até definir o processo de chegar no objetivo, tive muito apoio da minha sócia e decidimos que dali em diante iríamos até o fim. E foi exatamente como sair da piscina para ir às maratonas aquáticas: meu mundo se abriu. Fico feliz de ter saído da minha zona de conforto. Existe aquela história sobre portas que se abrem e se fecham. Às vezes uma acaba se fechando para a gente, mas outra se abre, e ela é muito maior. Para entrar, só precisamos de coragem mesmo.

Esse é um ótimo exemplo sobre encontrar propósitos na vida.

Pois é. Eu notei que tinha a habilidade de aproximar as pessoas e influência para conseguir liderar. Isso é fazer a diferença e é o meu propósito desde mais novo. Neste novo desafio percebemos que os alunos estavam felizes em fazer aquilo que a gente também gosta. Foi incrível descobrir essa liderança que eu não sabia que tinha e ser capaz de praticar ela muito bem.

Tem mais exemplos de outras habilidades que você adquiriu?

A comunicação para mim sempre foi algo difícil. Quando me tornei professor faltava isso para conseguir me expressar bem com as palavras e era o primeiro ponto que eu precisava trabalhar. Mesmo sendo mais fechado e tímido em situações com muitas pessoas, eu consegui ter um jeito de passar a informação e ser mais aberto com alunos e grupos. Foi um desafio superado, junto com a timidez.

Enxergo a comunicação como a principal de todas as habilidades. Um líder precisa saber se comunicar com todos os níveis de pessoas, independentemente de área de atuação, e mostrar para os seus liderados como fazer o mesmo.

Você costuma trabalhar essas habilidades com seus alunos?

No dia a dia, como ainda sou atleta, mesmo que amador, trabalho bastante a disciplina e mostro para eles que não tem como fugir dela, se o desejo é ser bom em algo. Muito deles chegam com um sonho e a gente compra o mesmo objetivo. Para isso é preciso resiliência para se superar, disciplina para aceitar que tem dias em que o treino substituirá um evento com os amigos e escuta ativa para entender as instruções.

Pode parecer um processo de aprendizagem difícil, mas não é impossível. Agora, imagine isso em uma empresa, o quanto de realizações em conjunto podem acontecer quando todos alinham seus conhecimentos e habilidades?

Finalmente, vamos falar dos desafios que você está para enfrentar. O que rolou depois de saber que iria participar das duas competições fora do Brasil?

Depois que tudo isso aconteceu, não dormi um dia sem pensar nelas. O primeiro momento foi a notícia da maratona na Itália (Capri-Nápoles), que eu já julgava como uma prova que vai exigir muito de mim, principalmente de preparação. Até hoje eu nadei 30 km e essa vai ter 36 km.

Tenho necessidade de saber se tudo o que eu fiz vai ser suficiente, pois esta será minha primeira vez fora do país. O que pesou mesmo foi a chamada para participar da prova no Canal da Mancha, que é um lugar muito hostil, com corrente, água gelada e vento forte. É um lugar que pode assustar qualquer nadador.

E como consegue controlar esse medo?

Primeiro, tenho o desejo de tentar quebrar esse paradigma e mostrar – nem que seja só para mim – que, se eu consigo completar, todo mundo consegue. É difícil, mas se existe dedicação e preparação, nada é impossível. Entro na piscina todos os dias com a mentalidade de que eu já estou competindo. Isso faz toda a diferença, porque treinar a mente diariamente nos fortalece para superar o que puder dar errado.

A minha intenção é chegar bem do outro lado (risos). Pretendo completar, sair da água sabendo que fiz o melhor e sem a pressão de bater recordes. Quero nadar e terminar. O resto é consequência.

E essa lição de treinamento não serve só para atletas.  

Exatamente! No mundo corporativo é a mesma coisa. Tem que se traçar o objetivo, verificar se ele é viável e o que será feito para chegar lá. Entram também as metas e estratégias, além de do preparo mental para suportar mudanças e saber ajustar o que for necessário no meio do caminho, sem fugir do foco. Mas a tensão é sempre grande em qualquer situação

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Autor (a)

Ana Rízia Caldeira
Ana Rízia Caldeira
Boa ouvinte, aprecio demais os momentos em que posso ver o mundo e conhecer as coisas pelas palavras das outras pessoas. Não por menos, entrei para o jornalismo. E além de trazer conteúdos para o Next, utilizo minhas habilidades de apuração e escuta para flertar com a mini carreira de apresentadora nos stories do MBA USP/Esalq, no quadro Você no Camarim.

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